O Holter mostrou pausas nos batimentos. Isso significa que preciso de um marcapasso?

Por Dr. Marcello Henrique Paschoal, Cardiologista
da EMPAR – CRM-DF 16985

Receber o resultado de um Holter mostrando uma pausa nos batimentos, uma bradicardia importante ou um bloqueio atrioventricular costuma gerar ansiedade. Muitos pacientes imaginam imediatamente que precisarão colocar um marcapasso.
Felizmente, essa conclusão quase nunca pode ser feita apenas pelo laudo.
O Holter é um excelente exame para identificar alterações do ritmo cardíaco, mas a decisão sobre qualquer tratamento depende da avaliação conjunta dos sintomas, do histórico clínico e das características da alteração registrada.
O que significa uma pausa nos batimentos?
O Holter registra continuamente a atividade elétrica do coração durante 24 ou 48 horas. Nesse período, podem ocorrer intervalos um pouco maiores entre um batimento e outro, chamados de pausas cardíacas.
Embora o termo assuste, essas pausas nem sempre indicam uma doença.
Durante o sono, por exemplo, é natural que a frequência cardíaca diminua devido ao aumento da atividade do sistema nervoso parassimpático. Por isso, pequenas pausas podem ser encontradas em pessoas saudáveis, especialmente em jovens, atletas e pacientes com apneia obstrutiva do sono.
O que costuma aparecer no laudo do Holter?
É comum que o exame descreva alterações como:
pausa sinusal;
pausa maior que 2 ou 3 segundos;
bradicardia sinusal;
bloqueio atrioventricular;
frequência cardíaca mínima reduzida;
extrassístoles.
Esses termos fazem parte da descrição técnica do exame e, isoladamente, não significam que exista indicação de marcapasso.
Quando uma pausa merece atenção?
A interpretação depende muito mais do contexto do que da duração da pausa.
Durante a consulta, o cardiologista considera fatores como:
presença de desmaios, tonturas ou perda de consciência;
ocorrência da pausa durante o sono ou enquanto o paciente estava acordado;
tipo de alteração elétrica registrada;
doenças cardíacas conhecidas;
uso de medicamentos que reduzem a frequência cardíaca.
Assim, uma pausa registrada durante o sono em um paciente sem sintomas pode ter um significado completamente diferente da mesma alteração em alguém que apresenta desmaios recorrentes.
Quando o marcapasso é realmente indicado?
O marcapasso é indicado para tratar determinadas bradiarritmias sintomáticas ou alterações da condução elétrica capazes de comprometer a segurança ou a qualidade de vida do paciente.
Entre as principais indicações estão:
doença do nó sinusal sintomática;
bloqueios atrioventriculares avançados;
algumas formas de bradicardia persistente.
Em outras palavras, o tratamento é indicado para o paciente, e não para o exame.
Existem causas reversíveis?
Sim.
Antes de indicar um marcapasso, é fundamental investigar condições que podem provocar lentidão dos batimentos, como:
medicamentos (betabloqueadores, alguns bloqueadores dos canais de cálcio, digoxina, entre outros);
hipotireoidismo;
distúrbios dos eletrólitos;
infecções agudas;
apneia obstrutiva do sono.
Em muitos casos, tratar a causa de base é suficiente para normalizar o ritmo cardíaco.
A apneia do sono merece atenção especial. Ela pode causar pausas e bradicardia durante a noite, alterações que frequentemente melhoram após o tratamento adequado com CPAP.
O que acontece depois de um Holter alterado?
Dependendo do caso, o cardiologista poderá solicitar exames complementares, como ecocardiograma, teste ergométrico ou monitorização prolongada com Looper (monitor cardíaco implantável), especialmente quando os sintomas são pouco frequentes.
O objetivo é verificar se a alteração encontrada realmente explica os sintomas e definir a melhor conduta para cada paciente.
O mais importante
Receber um Holter mostrando pausas nos batimentos não significa automaticamente que você precisará colocar um marcapasso.
Na maioria dos casos, essas alterações precisam apenas ser interpretadas dentro do contexto clínico. Quando existe indicação de marcapasso, trata-se de um tratamento seguro, amplamente consolidado e capaz de melhorar a qualidade de vida e prevenir complicações.
Na EMPAR, cada caso é avaliado de forma individualizada. Quando necessário, contamos com a Dra. Patrícia Rueda, referência em eletrofisiologia clínica e estimulação cardíaca artificial, para oferecer aos pacientes uma investigação completa e as opções terapêuticas mais modernas.
Mensagem do cardiologista
Na prática do consultório, um dos maiores receios dos pacientes é imaginar que qualquer pausa registrada no Holter levará ao implante de um marcapasso.
Felizmente, isso raramente acontece.
Mais importante do que a duração da pausa é compreender por que ela ocorreu, se está relacionada aos sintomas e qual seu real impacto sobre a saúde. É essa avaliação individualizada que permite indicar o tratamento mais adequado para cada pessoa.
Dr. Marcello Henrique PaschoalCardiologista – EMPAR
Perguntas frequentes
Uma pausa de 2 ou 3 segundos é normal?
Pode ser. Durante o sono, pausas dessa duração podem ocorrer em pessoas saudáveis. O significado depende do contexto clínico e da presença de sintomas.
Toda pausa registrada no Holter exige marcapasso?
Não. A grande maioria não exige. A indicação depende do tipo de alteração elétrica, dos sintomas e da avaliação do cardiologista.
A apneia do sono pode causar pausas?
Sim. A apneia obstrutiva do sono pode provocar bradicardia e pausas durante a noite, muitas vezes reversíveis com tratamento adequado.
Alguns medicamentos podem provocar pausas?
Sim. Alguns remédios que reduzem a frequência cardíaca podem favorecer bradicardia ou pausas em pacientes suscetíveis.
O Holter é suficiente para decidir sobre um marcapasso?
Nem sempre. Em algumas situações, outros exames são necessários para esclarecer a causa dos sintomas e confirmar a necessidade de tratamento.
Referências
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